18 de abril de 2008

A arte reciclada propõe um relacionamento diferente entre o Homem e os seus restos imortais.

Apenas um monte de lixo?
A sombra desta escultura exposta no Museu de Arte de Israel prova que não.

O que têm em comum coisas como um pedaço de tela, um monitor de computador, um amontoado de resíduos urbanos, um bocado de aço, bronze ou madeira, uma carica, uma placa de rede, um pente de criança e um resto de plástico? «Todas elas são suportes para uma obra de arte», responde prontamente John Dalsen, um artista que fez do lixo o seu meio de expressão.

Dalsen descobriu o mundo da arte reciclada por acidente. «Em 1997, andava a recolher aquelas madeiras perdidas que flutuam pela costa australiana para fazer mobília e dei de caras com amontoados de plástico à deriva pelo oceano. Abriu-se para mim uma nova paleta de cores e formas: nunca tinha visto tonalidades e contornos assim».

Depois de muitos anos como pintor abstracto e movido por um compromisso pessoal com as questões sociais e ambientais, deixou a tela e o pincel e lançou-se numa nova forma de comunicação: a dos objectos achados por acaso. «O meu desafio como artista é pegar nos objectos que encontro – que, numa primeira abordagem, podem não suscitar qualquer possibilidade de diálogo – e trabalhá-los até que eles falem e contem a sua história», refere John Dalsen, justificando o salto de uma arte estruturada sobre elementos figurativos para um campo totalmente abstracto, sem fronteiras definidas.

Segundo John Spike, director da Bienal Internacional de Arte Contemporânea realizada o ano passado em Florença, a arte reciclada chega a cruzar-se com a arqueologia: «observando estas obras de arte, consigo ver todas as camadas do mundo, todas as pessoas diferentes que o constituem; cada objecto transformado é portador de memória, contém qualquer vestígio da sua primeira vida».

Washington Santana, o “poeta do lixo” do Brasil conhecido pelo polémico projecto “A Arte do Lixo”, transforma sucata em mensagem, e essa mensagem em obra de arte. Através da escultura, pretende realizar toda a dimensão humana, social e estética do resíduo urbano. «Sei que represento o mundo de pernas para o ar, mas afinal, pelo avesso, o lixo é a expressão de uma cidade», afirma Santana, referindo-se à metrópole de São Paulo, que gera diariamente cerca de doze mil toneladas de resíduos sólidos.

John Spike compara os artistas às abelhas. «Uma abelha recolhe néctar para fazer mel, mas o que ela está, no fundo, a fazer é a polinização das flores», explica o crítico de arte. «Assim, também, as acções dos artistas têm consequências inesperadas», conclui.

Bill Clark, depois de uma vida inteira a trabalhar com automóveis no estado de New Jersey, EUA, resolveu juntar peças de automóvel inutilizadas e começou a construir cães-robot, gatos, flores e músicos de jazz. Rochelle Ford selecciona pedaços de aço, cobre, latão, vidro, penas, sementes e ossos e inverte-lhes a sua função, estandardizada socialmente. Foi ela que reconstruiu a sua própria casa - situada do distrito de Palo Alto, área da Universidade de Stanford historicamente destinada a professores – e assim a transformou numa obra de arte. Bill e Rochelle são os rostos de dois novos projectos de escultura futurista, baseada na reciclagem e reutilização dos resíduos indestrutíveis produzidos diariamente pelo ser humano.

Bonnie Meltzer gostou da ideia de salvar objectos reutilizáveis da lixeira, especialmente material informático, e começou a criar joalharia um pouco bizarra. «Quase todas as partes de um computador, com maior ou menor transformação criativa, podem entrar na construção de uma peça de joalharia» explica o norte-americano de Portland, acrescentando que para tal «basta moldar, estruturar, estilizar, conectar, fundir, reconstruir».

Afinal o que têm em comum artistas como Dalsen, Santana, Clark, Ford e Meltzer?

4 comentários:

Lili disse...

É para que vejamos que um amontoado de lixo ou de nada, pode ser muito dependendo da pessoa que o encontra ou que o vê.

Rlua disse...

EM COMUM ARTE E LIXO!
PODEMOS DIZER QUE ESTAS DUAS PALAVRAS ESTAO INTERLIGADAS !

Rui Costa disse...

Muitas vezes podemos reutilizar materiais que á partida o seu destino
seria o contentor do lixo,seja para um trabalho artístico ou algo para o nosso lar!

Isabel disse...

Fazer de um amontoado de lixo arte... Quem teria tal ideia para uma acção destas? Só mesmo um génio...